ENSINO DA LÍNGUA PORTUGUESA PARA ESTRANGEIROS*

Cristina Alves Pereira*
Iliane Luza Roberta B. Martins **

Resumo: A questão do ensino da Língua Portuguesa para estrangeiros. As universidades pioneiras. Os métodos adotados, as dificuldades encontradas pelo estudante e as avaliações.
Palavras-Chave: português, ensino, estrangeiros.

O Português como língua estrangeira, até recentemente no Brasil, não se constituía como idioma de valor internacional, mas ao longo da última década, vem crescendo progressivamente a procura pelo ensino da língua para estrangeiros.

Através de busca em vários sites da internet, encontramos apenas nomes de escolas e professores que atuam nesta área. Mediante isso agendamos com uma professora do Departamento de Letras da Universidade de Caxias do Sul – UCS – que nos orientou e forneceu material para darmos início à pesquisa. Com esse material em mãos, foi feita a seleção dos itens que responderão as perguntas da nossa pesquisa que são as seguintes: -Como ensinar a Língua Portuguesa para estrangeiros?

-Quais as dificuldades encontradas pelos estrangeiros na aprendizagem ? -Quais os materiais disponíveis para essa aprendizagem ?

-Existe reconhecimento por algum órgão público do certificado ?

O ensino do português como língua estrangeira começou a ter um desenvolvimento a partir da década de 60, nos Estados Unidos.

Em Austin capital do Texas, reunia-se uma equipe binacional (norte-americana/brasileira) para elaborar um manuscrito para uma edição experimental chamada Modern Portuguese. Entre o preparo do texto experimental de Modern Portuguese e a elaboração do manuscrito passou-se uma década. (Matos apud. Filho, 1989:11).

O ensino da Língua Portuguesa como segunda língua tem uma história de quase cinco séculos, quando os jesuítas portugueses ensinavam os índios que habitavam as terras brasileiras. (Paes apud. Filho ,1992:12).

A partir de 1988, profissionais de línguas pesquisavam a respeito do ensino e da aprendizagem do português para estrangeiros. Mas o programa de língua estrangeira iniciou-se oficialmente no Brasil na década de 90. Inicialmente na Universidade de Brasília, posteriormente na Universidade Federal do Rio Grande do Sul de Porto Alegre e no final da década na Universidade de Caxias do Sul, a qual vem aplicando provas, na Argentina e no Urugauai, há aproximadamente três anos .

As pioneiras no programa de ensino do português para estrangeiros são: A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), a Universidade do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC - RJ), a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a Universidade de Brasília (UNB), a Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC – RS). (Paes apud. Filho ,1992:18).

Vendo isso o ministério da educação e o Itamaraty incentivaram o ingresso de alunos estrangeiros nas Universidades de Brasília e de Porto Alegre através de matrículas cortesia, intercâmbios e acordos internacionais. ( Cunha & Santos ,1999:16).

Na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), todos os cursos foram criados nos últimos 15 anos (os da UNICAMP e USP são mais antigos) e 2/3 deles nos últimos 10 anos. Os professores das Universidades citados acima apontam algumas deficiências do programa:

a) oficialização desse programa de ensino do português para estrangeiros está lento. b) Não há exames padronizados de avaliação de proficiência (embora haja pesquisa oficial em andamento);

c) Não há pessoal docente suficiente, com formação e treinamento adequado. (Paes apud. Filho ,1992:13).

Nessas universidades os níveis de institucionalização dos programas de português para estrangeiros são desiguais.

A procura pelo ensino do português para estrangeiros no Brasil, veio da necessidade de pessoas que vinham de outros países, em sua grande maioria, executivos e intercambistas, na faixa etária de 16 a 50 anos de idade. A grande maioria de estrangeiros que vêm para o Brasil preferem aprender a Língua Portuguesa apenas pela convivência com os brasileiros. Esses em suas residências com os seus familiares falam somente a língua materna e somente falam o português nos cursinhos, nas escolas ou na empresa. Tornando assim, mais difícil o aprendizado da língua . Isso não ocorre com os intercambistas, pois esses convivem com famílias brasileiras e fazem uma imersão na língua , ou seja, falam o português nas vinte e quatro horas do dia e conseqüentemente o aprendizado será mais rápido. Normalmente os cursos são freqüentados por um pequeno número de pessoas geralmente as que possuem uma certa cultura e poder aquisitivo.

Em geral , os cursos proporcionam ao estudante estrangeiro uma linguagem coloquial, não fornecendo uma visão geral da língua. A maioria dos aprendizes estão interessados em uma ou mais variedades específicas. Por exemplo: os empresários precisam elaborar circulares, cartas e necessitam da linguagem técnica .Já para os estudantes intercambistas o objetivo é comunicar-se, então a linguagem coloquial é suficiente.
 
 

Com relação ao programa de línguas esse é dividido em semestres ou bimestres de acordo com cada Universidade. Na Universidade de Brasília o curso acontece bimestralmente com carga horária de 60 horas, com duração de 2 horas por dia. Os regentes são alunos do curso de Letras, orientados e acompanhados pelos professores coordenadores do programa.

Já na Universidade de Porto Alegre (UFRGS) os cursos são oferecidos semestralmente sendo que o nível 1- básico, possui 120 horas/aula, o nível 2 – intermediário tem duração de 90 horas/aula. O curso de cultura brasileira, através do som e da música com 60 horas/aula; leitura e produção de texto com 60 horas/aula e o curso de conversação, também com 60 horas/aula.

A Universidade de Caxias do Sul (UCS) a pedido da comunidade empresarial implantou no curso de extensão o programa de português para estrangeiros. A carga horária é de 50 a 60horas/aula. As turmas não são regulares, são formadas mediante solicitação do público interessado.

A língua portuguesa devido as influências sofridas por outras línguas em sua origem, não ocasiona dúvidas somente ao nativo da língua, mas também, e, em especial ao não nativo. Diante disso, e segundo Kunzendorff apud.(1989:28), exemplificaremos algumas dificuldades encontradas pelos estudantes de língua materna inglesa e alemã, em aprender o português.

Se o aluno tem como língua materna o inglês, encontrará dificuldades em: a) pronúncia das vogais abertas e fechadas;

b) ditongos nasais decrescentes/ão/mão/ escrevam.

c) Acento tônico

d) /t/ - "folhas" por / fóias/

e) /u/ e /l/ - "restaurante"

f) /x/ e /z/ "examinar/ks/

  • g) /r / "carro" por /r/
  • O aluno de língua materna alemã encontrará no campo fonológico as seguintes dificuldades:
      1. /s/ por /z/: "senhor", "pescoço"
      2. acento tônico
      3. /ãu/ por /õ/ : "mão"
      4. /~z/ por /~s/ : "já", "juízo"
    No campo da semântica, independentemente da língua materna, os alunos , apresentam dificuldades com o significado das palavras, principalmente com as expressões idiomáticas e falsos cognatos, pois recorrem aos dicionários e nem sempre encontram o significado que se adapte ao contexto.

    Na parte mortológica a dificuldade está na:

      1. flexão de gênero e número;
      2. preposição, principalmente por/para;
      3. emprego dos comparativos e superlativos;
      4. flexões verbais. ( fonte idem).

     
     

    Na sintática os alunos apresentam dificuldades na estruturação da sentença, geralmente eles entendem o que os outros falam, porém não conseguem formular orações devido as dificuldades morfológicas que refletem no sintático como : concordância verbal e nominal. Difícil é o emprego dos tempos verbais no perfeito e no imperfeito, do subjuntivo e dos pronomes oblíquos. (ibidem).

    Quanto a seleção para docentes no programa de português para estrangeiros em algumas instituições, o requisito é que o professor tenha qualquer graduação e seja nativo da língua portuguesa. Por isso muitos psicólogos, geólogos, estudantes de teologia, jornalistas ou até mesmo normalistas estão desempenhando a função de professores de português para estrangeiros. (Chacon apud. Filho ,1992:57).

    Devido a isso o principal problema dos alunos estrangeiros é o despreparo dos professores, pois muitas vezes os mesmos não possuem domínio operacional dos padrões fônicos e estruturais do português, que se constituiria no mínimo exigido como qualificação para o seu desempenho profissional.

    Na Universidade de Brasília, os regentes de português para estrangeiros, são necessariamente alunos do Curso de Letras da Instituição. As aulas são ministradas por professores-alunos coordenados por professores-pesquisadores.

    Com relação ao material didático cada instituição utiliza o que melhor lhes convêm. Por exemplo a Universidade de Brasília utiliza os materiais elaborados pela professora Percilia Santos, e também os livros "Tudo Bem" de Ramalhete (1984), "Curso Ático de Português" de Silva Gomes (1987), "Falando ... lendo...e escrevendo português: um curso para estrangeiros", de Lima e Lumes (1981). (Cunha & Santos, 1999:18-19)

    Nas Livrarias é possível encontrarmos outros títulos destinados ao ensino do português para estrangeiros com o "Fala Brasil" de Coudry e Fondão (1991) e "Bem Vindo" de Maria Harumi Otuki de Ponce, Silvia R. B. Andrade Burin e Susanna Flarissi. (2000), entre outros.

    Quanto à avaliação, cada universidade adota um critério. Por exemplo na UNICAMP a avaliação é global por tarefa, isto é, envolve todos os aspectos de precisão e de adequação da linguagem em seis níveis.

    Na UFRGS os critérios usados são de competência e desempenho do candidato, segundo os objetivos comunicativos a serem atingidos em cada tarefa.(Idem). Tivemos como preocupação e curiosidade nesse artigo responder algumas questões sobre o ensino do português para estrangeiros. Apesar dos obstáculos encontrados conseguimos responder ,em parte algumas questões são elas: contexto histórico, as universidades pioneiras no estudo do ensino, as dificuldades encontradas pelos estudantes estrangeiros. Isso ocorreu pela insuficiência de material e o desencontro de informações.

    Futuramente pretendemos dar seguimento à pesquisa, pois é um assunto novo e muito ainda a ser explorado e pesquisado.
     

    Referências Bibliográficas:

    CUNHA, Maria Jandira & SANTOS, Percilia. Ensino e pesquisa em português para estrangeiros. Brasília: 1999.

    FILHO, José Carlos P. De Almeida & LOMBELLO, Leonor C. Ensino de português para estrangeiros. São Paulo: Pontes, 1989.

    ______________. Identidades e caminhos no ensino de português para estrangeiros. São Paulo: Pontes, 1992.
     
     

    _________________________________________________________________________

    *Artigo apresentado à disciplina de Iniciação à Pesquisa , da Universidade de Caxias do Sul, ministrada pela professora Dra. Eliana Soares.

    * *Acadêmicas do Curso de Letras da Universidade de Caxias do Sul.