Comunidades de Aprendizagem Virtual: uma realidade em construção
O contexto atual nos apresenta o que talvez seja um dos maiores desafios enfrentados pela humanidade: o de viver numa era de constantes inovações e descobertas científicas e tecnológicas. Embora o homem esteja imerso nessas mudanças, parece não ter compreendido totalmente o significado dessa nova realidade para a evolução do saber e das relações com o mundo. A natureza do trabalho e a relação econômica entre as pessoas e as nações têm sofrido transformações, mudando a natureza do que hoje podemos entender por profissão. Neste quadro a Educação não apenas tem que se adaptar às novas necessidades como, principalmente, tem que assumir um papel de ponta nesse processo. O papel dos educadores deve ser repensado e novas estratégias na formação desses profissionais devem ser previstas, criando nas universidades e escolas o ambiente para a formação de sujeitos críticos, dotados de autonomia de aprendizagem e de pensamento.
O desenvolvimento e uso das tecnologias têm permitido novas possibilidades de interações do homem com a máquina e com o mundo. As novas tecnologias da comunicação e informação (NTIC), ao mesmo tempo que permitem a troca de informações, conectam diferentes espaços e permitem que as relações entre as informações sejam feitas considerando diferentes possibilidades. Isto nos faz retornar ao homem, buscando compreender melhor o seu desenvolvimento (seu complexo processo de aprendizagem, a interação e comunicação humana), que o possibilita apropriar-se de novas realidades reais e virtuais, transformando o seu meio. Relações antes não estabelecidas agora são possíveis porque as pessoas interagem, tecendo uma complexa rede de possibilidades.
De acordo com Fagundes & Basso (1997) e Estrázulas (1997), é por meio de diferentes tipos de interação, entre o objeto de conhecimento e os sujeitos, que é possível a construção de um saber partilhado e a busca de inovações pedagógicas e profissionais.
O desconhecimento de ambientes informatizados e de como utilizá-los pode criar uma nova geração de "analfabetos tecnológicos". O ambiente profissional está cada vez mais dependente dos processos executados e gerenciados por programas computacionais. As relações entre o que é feito, os recursos computacionais e as possibilidades de simulação e representação propiciadas por esses recursos precisam ser analisadas e explicitadas para que seja possível entender de que forma a presença desses recursos pode auxiliar na programação de aprendizagem e em que aspectos e em que grau esses recursos alteram o ambiente de aprendizagem e as relações profissionais. Lévy (1993) faz uma análise do futuro do pensamento, na era da Informática, mostrando que a sociedade contemporânea está diante de "novas tecnologias intelectuais". O autor examina diferentes tecnologias que transformam a sociedade atual, indicando algumas implicações, como alterações na maneira de conhecer o mundo, de produzir, representar e divulgar o conhecimento por meio de linguagem, fazendo emergir um "conhecimento por simulação" que, conforme ele destaca "os epistemologistas ainda não inventariaram". Sendo assim, ao considerar recursos computacionais e tecnológicos, surgem novas maneiras de estabelecer relações com os problemas que aparecem no cotidiano. Novas no sentido de que são de outra natureza, de outra ordem daquelas que eram estabelecidas antes da presença dos recursos da informática. Examinar, caracterizar essas mudanças e analisar seus impactos no processo ensinar e aprender é fundamental para utilizar os recursos tecnológicos para programar ambientes de aprendizagem.
Ambiente virtual de aprendizagem
Como entender essa expressão? Ela está relacionada ao desenvolvimento de condições e estratégias de aprendizagem enriquecidas com recursos da informática para possibilitar a construção dos conceitos e a interação do aluno com o objeto de conhecimento, com o professor e com os colegas. Em geral esse ambiente é dimensionado por meio de atividades relacionadas à leituras orientadas, experiências, simulações, estudo de caso, uso de aplicativos (software) específicos, dentre outros. O que norteia a construção de um determinado ambiente é o que ele possibilita aprender. O termo virtual está sendo entendido conforme a concepção de Lévy (1996). Assim virtual é entendido como "não-presencial", com todo o potencial do presencial. Um ambiente virtual é um ambiente que propicia a interação, a cooperação, possibilitando que o aluno tome decisões, "faça funcionar", analise, interprete, observe, teste hipóteses, elabore, construindo relações que constituem aprendizagens consideradas de valor. Portanto, antes de qualquer coisa, o professor precisa ter claro "o que quer" ou "o que pretende" com o ambiente construído. Caso contrário os ambientes podem ser apenas algo para cumprir programas ou rituais acadêmicos e não algo para capacitar aprendizes. Nesse cenário o professor observa o processo, orienta, facilita, instiga, ou seja, constrói um ambiente propício para a construção de aprendizagens.
Como destaca Krüger (1993) a possibilidade de interação que os aplicativos computacionais oferecem, em especial, os ambientes que permitem a elaboração e registros dos passos realizados pelos aprendizes, auxiliam na obtenção de dados sobre como o processo de conhecer e aprender acontece. Esse pesquisador salienta também que a sintaxe das linguagens empregadas, a estruturação lógica dos comandos, as inevitáveis falhas, retrocessos e obstáculos rotineiros enfrentados por usuários, que ficam registrados de alguma forma, constituem relevantes informações que podem ser analisadas, permitindo avanços no conhecimento da cognição da aprendizagem. Krüger ainda enfatiza que o emprego do computador produz duplo efeito: o da apreensão metacognitiva de conteúdos e aspectos operacionais de nossa mente e o da autoconsciência de nosso papel como pessoas dotadas de tais ou quais valores, motivos, disposições afetivas e tendências comportamentais. Resta acrescentar que esses aspectos tem a possibilidade de acontecerem se a construção dos ambientes de aprendizagem estiverem voltados a esses desenvolvimentos aliados aos recursos computacionais.
Que paradigma educacional é capaz de embasar programações
de ambientes de aprendizagem onde o aprendiz é visto em sua multidimensionalidade,
com seus diferentes estilos de aprendizagem e suas diferentes formas de
resolver problemas e de perceber a realidade? Um ambiente em que o fenômeno
educativo é considerado em seus aspectos físico, biológico,
mental, psicológico, cultural e social? Um paradigma que leve em
conta a interdependência entre os processos de pensamento, de construção
do conhecimento e do ambiente; que promova a visão de contexto,
sem separar o homem do seu ambiente e de seus relacionamentos, auxiliando-os
a perceber o mundo como uma teia sistêmica e interligada, de forma
a evidenciar os processos cíclicos da natureza, da qual somos parte;
um paradigma que desencadeie um novo sistema ético com valores,
percepções e condutas que contribuam para o desenvolvimento
sustentável e para a paz e harmonia entre os povos do planeta. Enfim
um paradigma que promova a Educação para a transcendência.
Segundo Moraes (1997), este referencial pode ser identificado como o
paradigma educacional emergente e reconhecido como construtivista,
interacionista, sociocultural e transcendente. Esse paradigma emergente
fornece elementos para compreender os processos desenvolvidos quando sujeitos
interagem através de redes e podem permitir uma mediação
no sentido de orientar o processo de aprendizagem.
Concebendo, analisando e aperfeiçoando ambientes virtuais de aprendizagem
O LaVia -Laboratório de Ambientes Virtuais de Aprendizagem- http://ucsnews.ucs.br/lavia - é um projeto de pesquisa apoiado pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade de Caxias do Sul, que integra uma equipe interdisciplinar de professores e bolsistas de iniciação científica. Esse projeto busca desenvolver, experimentar e aperfeiçoar ambientes virtuais de aprendizagem, com base em paradigmas educacionais construtivistas interacionistas, analisando de forma compartilhada, as possibilidades reais e os limites no uso das alternativas tecnológicas; examinando novas estratégias educacionais e avaliando o processo de aprendizagem em decorrência das interações em ambientes virtuais de aprendizagem. Para isso estão sendo construídos ambientes na Web, contendo hipertextos, links de acesso à páginas com orientações para estudos à distância, com informações da disciplina, com URLs contendo temas relacionados à disciplina (biblioteca virtual), listas de discussão, fóruns e diferentes tipos de formulários para efetivar processos de interação entre o professor e aluno e entre alunos. As informações referentes aos conceitos a serem estudados são disponibilizadas na Internet em forma de hipertextos, organizados de forma a incentivar o aluno a refletir, a interpretar, a tomar decisões e a gerenciar sua aprendizagem. Em alguns ambientes é a partir das interações entre o grupo (alunos e professores) que a dinâmica do ambiente vai sendo construída, desta forma as diferentes possibilidades interativas sustentam o desenvolvimento dinâmico dos contextos de aprendizagem. Os ambientes estão sendo construídos de forma a possibilitarem a cooperação, a interação, a tomada de decisões e o estabelecimento de relações para a construção de aprendizagens significativas, em vivência real. O estudo do processo de aprendizagem em ambientes virtuais está sendo realizado em turmas de graduação dos cursos de Engenharia, Psicologia, Pedagogia e Matemática e em cursos de Extensão.. A avaliação da dinâmica do ambiente está sendo realizada permanentemente pela equipe de pesquisadores, como mecanismo de correção ou indicativo de mudanças no planejamento do ambiente.
As informações e os dados obtidos por meio de registros
dos ambientes e entrevistas com os alunos estão sendo analisados,
de forma a caracterizar as possibilidades dos recursos e identificar as
variáveis e outros aspectos que, de alguma forma, podem interferir
no processo de ensino e de aprendizagem. Essa análise procura também,
identificar as ferramentas, programas computacionais e softwares interativos
que proporcionem contextos de interatividade mais adequados para a construção
de ambientes virtuais de aprendizagem. Essa análise é realizada
de forma compartilhada pelo grupo de pesquisadores procurando entender
como ocorre a aprendizagem nos ambientes desenvolvidos, identificando dificuldades
e obstáculos referentes ao uso das ferramentas, as concepções
prévias dos alunos, intervenções do professor e outras
variáveis que interferem no processo de aprendizagem. Os dados coletados
para essa análise são obtidos por meio de registros no ambiente
e pela observação e entrevista realizadas pelos professores
pesquisadores ou seus bolsistas junto aos alunos. O resultado dessa análise
serve de base para aperfeiçoamento dos ambientes e criação
de novas e diferentes estratégias de aprendizagem. Paralelamente
às análises são realizados estudos teóricos
que orientam e auxiliam nesse processo. Assim os pesquisadores do LaVia
atuam de forma compartilhada formando uma comunidade que aprende a construir,
analisar e aperfeiçoar ambientes virtuais de aprendizagem, com base
no paradigma construtivista interacionista. Os primeiros resultados dessa
pesquisa constituem um conhecimento que dá indicativos para a elaboração
de ambientes de aprendizagem.
Algumas considerações para construir ambientes de aprendizagem
Um ambiente de aprendizagem se concebido com base no paradigma construtivista interacionista leva a desestabilização das concepções tradicionais de ensino-aprendizagem e possibilita o sujeito a construir uma cultura informatizada e um saber cooperativo, onde a interação é privilegiada.
Por exemplo, um aspecto importante a ser considerado é a forma de comunicação. Os ambientes de aprendizagem tradicionais sempre foram por excelência espaços da oralidade. O professor falando e o aluno ouvindo. Construir ambientes de aprendizagem onde a oralidade dá espaço para a escrita, com base no pressuposto epistemológico construtivista permite que várias mudanças cognitivas, sociais, lingüísticas e afetivas ocorram. A comunicação num ambiente virtual não possui características extralingüísticas, (Fagundes & Axt, 1992), como expressões faciais e corporais, somente a língua escrita é usada como linguagem expressiva deste ambiente. A interação nos ambientes virtuais é alimentada pela discussão dos interlocutores, que estão potencialmente conscientes do objetivo e do andamento do diálogo que se desenvolve em uma cadeia de razões. Este contexto comunicativo leva os envolvidos a uma padronização da escrita, diferentemente da escrita para um sujeito ausente, um texto ou uma carta. Esse esforço compreende também o fazer-se entender pelo outro, exigindo clareza na escrita e na comunicação da sua posição.
Neste sentido, é fundamental que o professor tenha clareza das bases teóricas que sustentam o seu trabalho. Outros aspectos precisam ser considerados: múltiplas interações, problematização, ambiente heterárquico.
Múltiplas interações - considerando a teoria piagetiana temos que o sujeito interagindo no mundo, está constantemente construindo novos conhecimentos. Isto implica num sujeito ativo, capaz de transformar a realidade na qual interage e de transformar a si mesmo. Assim o ambiente virtual de aprendizagem necessita possibilitar interações diversas, ou seja, comunicação multidirecional, conforme Silva (2000). Esta comunicação se dá com colegas, com professor, com outros grupos, com o computador, avançando rumo a um espaço interdisciplinar.
Ao contrário do que pode parecer, na educação à distância, a partir deste paradigma, o professor tem um papel fundamental, acompanhando e interagindo em todo o processo. Neste sentido destacamos o professor como problematizador, disponibilizador e promotor de interações que favoreçam o diálogo e as cooperações, sistematizador das experiências e colaborações dos alunos, construtor de possibilidades a serem exploradas, identificador de conhecimentos prévios e possíveis obstáculos, estimulador de ações explorativas e da expressão.
Problematização - vem fundamentada na teoria da equilibração, onde a fonte de progresso no desenvolvimento está nos desequilíbrios, já que estes impelem o sujeito a ultrapassar seu estado atual e procurar avanços e novas direções. Considerado o ponto de vista da equilibração, os desequilíbrios podem ser entendidos como fonte de desenvolvimento, pois são impulsionadores de novas equilibrações. Tomando essa perspectiva, é indispensável para o desenvolvimento este ciclo dialético de desequilíbrios e equilibrações progressivas. A partir disto um ambiente virtual de aprendizagem precisa conter situações que permitissem construir novas equilibrações a partir de desafios, de problemas, de estudos de casos, de grupos de trabalho interdisciplinares, onde o erro é tratado como "erro construtivo", hipótese atual do sujeito a respeito de certo saber. O erro pode levar a desequilíbrios pela confrontação dos sistemas de pensamento do sujeito com a realidade exterior, diante da qual os seus sistemas demonstram-se ineficazes.
O Ambiente heterárquico - caracterizado pela autonomia na colaboração, inexistência de regras fixas e impostas, substituídas pela negociação, pela dinâmica do ambiente flexível no sentido de possíveis reorganizações e pelas relações horizontais. Essa característica do ambiente fundamenta-se nas idéias de respeito mútuo e de moral autônoma de Piaget. O respeito mútuo só é possível a partir do exercício das cooperações na convivência em grupo. A troca cooperativa tende a ocorrer quando os sujeitos (interlocutores), num esforço representativo, buscam a descentração do ponto de vista próprio no sentido da compreensão do ponto de vista do interlocutor ou interlocutores. Outro aspecto presente na cooperação e exigido no ambiente é a reciprocidade, onde o aluno necessita coordenar o seu ponto de vista com o do outro, possibilitando novos entendimentos da realidade.
É fundamental que para construir e interagir num ambiente que busque privilegiar estes aspectos o professor tenha clareza e segurança epistemológica e de seu papel na aprendizagem no aluno. Com base no ambiente analisado apontamos aqui algumas características que acreditamos ser parte do papel do professor e do aluno neste processo. Do professor podem ser destacadas:
O estudo realizado até o momento com relação às interações em ambientes virtuais de aprendizagem mais do que dar certezas definitivas, mobiliza para novas questões e possibilidades desses ambientes. Alguns resultados não esperados apontam para as possibilidades dos ambientes virtuais de aprendizagem romperem com as barreiras da sala de aula tradicional e construindo uma comunidade de aprendizagem. O ambiente virtual de aprendizagem quando estruturado com base em pressupostos construtivistas/interacionistas pode ser transformador da relação professor/aluno. Não existe mais o espaço de destaque para a fala do professor, tanto com relação ao tempo como com relação ao espaço. Isto porque todos possuem os mesmos espaços de interação através dos diferentes contextos. As escritas (interações) tanto do professor como do aluno aparecem igualmente no ambiente, diferentemente de uma sala de aula tradicional onde os espaços para a fala do professor e do aluno são bem diferentes. Esse é um aspecto de destaque do ambiente, pois contribui para as trocas interativas onde tanto professor como aluno estão igualmente envolvidos no processo de aprendizagem e na construção de novos saberes. É claro que o ambiente por si só não garante essa interação, é necessário que o professor esteja consciente e aberto para essa mudança em seu papel. Sob esse ponto de vista o ambiente se configura como um meio de promover a cooperação, o confronto entre os alunos e a construção de uma prática social com condições de favorecer o processo de aprendizagem.
A Informática e suas ferramentas tem oferecido meios para desenvolver
ambientes que promovam a aprendizagem, mas a tecnologia digital em si,
não é solução para os problemas de aprendizagem
que permeiam a realidade educacional contemporânea. Ou seja, não
é suficiente virtualizar informações ou aulas presenciais,
com o intuito de estar desenvolvendo ambientes virtuais de aprendizagem.
Ambientes virtuais ou presenciais não são excludentes, mas
complementares, uma vez que o foco da questão educacional é
a mudança de paradigma e não a forma de utilizar os recursos
e as ferramentas para desenvolver os ambientes. Como colaboração
para essa mudança de paradigma é que se pode intuir que os
ambientes telemáticos podem constituir elementos de apoio.
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