Texto introdutório
Até o século XVII, a criança era vista apenas como um adulto que ainda não cresceu: era papel da pedagogia, portanto, moldar o seu caráter para que, adulta, fosse virtuosa. Em termos de aquisição do conhecimento, a criança era uma tabula rasa, a ser preenchida, plasmada, corrigida.
Apenas com Jean-Jacques Rousseau é esboçada uma mudança: o filósofo e escritor suíço começa a distinguir diferentes fases na formação moral e intelectual dos seres humanos e a identificar, no universo infantil, significados e valores próprios. Depois de Rosseau, foram necessários mais de dois séculos para que se pudesse avançar, de verdade, nesse campo.
Jean Piaget, transpôs as mais variadas fronteiras no campo das ciências. Pretendia apenas pesquisar a origem do pensamento científico-natural com métodos próprios das ciências naturais. Não estudara psicologia, mas biologia, que é uma ciência natural. Na juventude, a filosofia o fascinara tanto quanto a biologia. Dividido entre a propensão para a metafísica e o pendor para uma ciência empírica, Piaget somente encontrou o caminho certo ao descobrir que no estudo da inteligência infantil a biologia se vincula à filosofia das ciências naturais. Tomando por base a observação de seus próprios filhos, instaura uma teoria revolucionária sobre a formação da inteligência da criança, baseada na divisão de períodos etários e relacionada ao desenvolvimento da compreensão lógica. Piaget, mostra com sua teoria como se dá o desenvolvimento desde estágios mais simples até os mais avançados. Escreveu dezenas de livros e centenas de artigos que constituem obras importantes para se compreender a sua Epistemologia Genética. Piaget explica o desenvolvimento e a formação do conhecimento a partir de um processo central de equilibração, que considera como sendo o problema central do desenvolvimento. O equilíbrio cognitivo é entendido por Piaget como distinto de um equilíbrio mecânico (que se conserva sem modificação) ou de um equilíbrio termodinâmico (estado de repouso após a destruição das estruturas). O equilíbrio cognitivo é dinâmico, as trocas são capazes de "construir e manter uma ordem funcional e estrutural num sistema aberto". Piaget aponta para uma proposta de educação atual, onde o aprender é o foco central e não se encerra na sua formação escolar ou acadêmica. Para Piaget "O ideal da educação é antes de tudo, aprender a aprender; é aprender a se desenvolver e aprender a continuar a se desenvolver depois da escola". A educação, segundo a abordagem teórica de Piager privilegia a ação reflexiva do sujeito com o mundo e as trocas interindividuais. A aprendizagem geradora de conhecimento é a verdadeira aprendizagem. A aprendizagem, no sentido de conhecer, se dá quando o sujeito retira seu conhecimento da coordenação das ações (físicas ou mentais) que exerce sobre os objetos. A partir disto podemos inferir como será a relação de aprendizagem, professor e aluno. A fonte do desenvolvimento, nesta teoria, está no desenquilíbrio e na busca constante, pelo sujeito de novas reequilibrações. Assim, é papel do professor promover situações que possam desequilibrar ou colocar em xeque as certezas provisórias dos alunos e dos grupos. Cabe ao professor organizar interações do aluno com o meio (que não é só físico). É tarefa do professor problematizar, desencadear conflitos e propor situações de cooperação entre os alunos, pois não há operação sem cooperação. A cooperação nesta teoria diferencia-se da ajuda. Ajudar significa fazer pelo outro, e assim, o outro aprende a ser dependente, a esperar que solucionem por ele os problemas. Já cooperação é enfrentar solidariamente os problemas, é trocar e construir soluções e novos saberes junto com os outros. Neste sentido, é fundamental a interação social. A troca de idéias, e a discussão entre os colegas, sustentam toda a dinâmica do processo pedagógico. O aluno deve ser encorajado a exprimir suas idéias, mesmo que elas não estejam corretas sob a ótica do contexto específico ou do conteúdo estudado. O "erro" é considerado como "construtivo" quando refere-se à hipótese do sujeito sobre um determinado assunto. É através da confrontação desta idéia inicial com a dos demais colegas ou com a do próprio professor que se vai sendo construindo um novo saber. Essa confrontação deve partir da explicitação das idéias prévias dos alunos num clima de liberdade e aceitação.
Mas outro contemporâneo de Piaget, Vigotsky, procura compreender a criança a partir do contexto social e cultural. Vigostky nasceu em 1896, no mesmo ano que Piaget e Winnicot. Estudioso da psicologia, pedagogia e psiquiatria, porém nunca se formou em tais áreas. As obras de Vigotsky refletem o ambiente intelectual e a atmosfera do período pós-revolucionário na Rússia como um ponto de convergência das novas perspectivas que foram articuladas na arte, na literatura, no cinema e nas ciências humanas. Todas as suas obras tem o estilo de quebrar e romper, um estilo de uma confrontação com o que representa um sistema esteriotipado, fechado e fixo. Os temas de seu trabalho vão desde a neuropsicologia até a crítica literária, também se ocupou com problemas de deficiências, linguagem, arte, psicologia da arte, com questões de semiótica do cinema, com pedagogia e psicologia, com questões teóricas e metodológicas relativas as ciências humanas. Trabalhando em diferentes áreas da ciência o projeto principal de seu trabalho constitui-se em construir um novo paradigma do sujeito. O papel do professor, nesta abordagem, é atuar na Zona de Desenvolvimento Proximal. Este conceito implica o entendimento da Zona de Desenvolvimento Real, como a capacidade de realizar tarefas de forma independente e da Zona de Desenvolvimento Potencial, como a capacidade de desempenhar tarefas com ajuda de professores ou companheiros mais capazes. Assim, a Zona de Desenvolvimento Proximal, ou ZDP, é a distância entre o nível de desenvolvimento real e o nível potencial. A ZDP refere-se ao caminho que o sujeito vai percorrer para desenvolver novas funções. Constitui-se numa área em constante transformação, uma área de problemas, de insegurança, de perspectivas novas e, ao mesmo tempo, desconhecidas por cada sujeito. A ZDP é um diálogo do aprendente com o seu futuro, nunca um diálogo entre o aluno e o passado de um adulto, professor ou de uma sociedade. É um caminho original, nunca dois sujeitos trilharão o mesmo caminho. No conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal é que encontramos o papel do professor para Vigostky. A educação é entendida como a mediação entre o desenvolvimento individual e social. Assim a ZDP representa um instrumento teórico e metodológico para descrever e analisar a mediação como a construção do novo.
A obra de Paulo Freire, grande teórico e pedagogo brasileiro, nos dá uma contribuição pedagógica ímpar. A pedagogia de Freire postula que se deve partir, em qualquer programa de ensino, do aluno: do saber ou da cultura que o educando traz ou representa. O autor fundamenta epistemologicamente a pedagogia do diálogo. Para Freire, assim como para Piaget, o conhecimento é uma construção que exige um tipo de ação que se diferencia da ação prática, da ação que busca o êxito. A ação que constrói o conhecimento é a que se debruça inicialmente sobre os resultados de uma ação prática, e que vai progressivamente na direção de seus mecanismos íntimos, isto é, na busca da compreensão. Freire diz que educador é aquele que, além de ensinar, aprende, e educando é aquele que, além de aprender, ensina.
Para Freire a educação
crítica considera os homens como seres inacabados, incompletos,
em uma realidade igualmente inacabada. Essa consciência da incompletude,
tanto do sujeito como do meio, que perpassa a obra de Paulo Freire, encontra-se
nos fundamentos da postura construtivista. A consciência do inacabamento
é o que move o sujeito a construir algo que lhe permita superar
essa situação.